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sexta-feira, 31 de agosto de 2007

vivendo e aprendendo

Esta postagem diz respeito a uma prática de desenvolvimento dos parágrafos de um texto, a partir do tópico frasal. Para tanto, lanço mão de recursos admitidos pela linguística, fundamentais para a compreensão textual e jornalística. Convido-o a ler; vale a pena...

O PARAÍSO NA TERRA
Finalmente cheguei ao meu destino: a cidade onde nasci. Lá estava a mesma igrejinha, a loja do “seu” Manuel, a pracinha na rua principal. Foi, sem dúvida, uma viagem enfadonha e estafante, que nem mesmo meu inseparável puro-sangue Barriquelo, rápido feito o vento e tão veloz quanto o alemão, seria capaz de aturar sem se queixar. Pelo menos, a cidade ainda é idêntica àquela que viu meus primeiros passos: o rio claro feito seda, com as tardes imperdíveis de domingo atrás do almoço de segunda-feira; o vento suave derrubando as pétalas das gérberas nas varandas; os casais a caminhar pelas calçadas, limpas e bem cuidadas, ainda que as circunstâncias tenham apresentado o homossexualismo para os nativos de hoje. No ponto mais alto, a igrejinha, que ainda hoje não esqueceu o finado pároco Canabrava. Durante o café da manhã sua cachaçinha, não faz mal a ninguém, dizia ele tropeçando nas palavras. Até nas tardes de casório, o sujeito não se emendava. Era o calmante de um padre nervoso por natureza. Astrogilda já adentrava a capela, impecável com seu sublime vestido, um bordado de sacas de arroz e açúcar: o traje mais branco de que as cercanias já tinham tido notícia. Almirdrovando aguardava no altar, roendo o resto de dedo que ainda lhe restava; as cinco horas não passavam de um mero detalhe no coração de um homem apaixonado. O cabelo, muito bem composto à base de esperma bovina, compunha de maneira singular com o terno de defunto, alugado, uma fortuna, dividida em suaves 48 prestações. Dizem que Almir, o melhor ponta direita de uma cidade infestada de canhotos, passou dessa para uma melhor sem conseguir saldar a dívida; mas o que importa: era o dia mais feliz de sua vida. Ao som da marcha nupcial, na igrejinha decorada com as gérberas sem pétalas arrancadas das varandas, Canabrava desaba sobre Astrogilda; o bordado não resistiria e a cerimônia seria encerrada pelo delegado, com o espartilho à mostra... Se por um lado, a loja do “seu” Manuel é considerada, hoje, a “megastore” do lugar, por outro a pracinha da rua principal perdeu glamour e espaço para um tal de “shopping”, inaugurado na cidade vizinha, a poucos quilômetros dali. Mesmo assim, ela continua inatingível como ponto de referência, da mesma forma que “seu” Manuel sequer nota alguma concorrência.
Passando em frente da escola, de longe reconheci Clara. Meu coração quase veio à boca. Era impossível não reparar na donzela, na maravilha, na perfeição, no requinte, no esmero, na mais bem sucedida criação divina que se aproximava. “Não sei quem é você”; mas, não importava: minha lembrança valia por nós dois. Na primeira carteira, ao lado da porta, nunca encostada na parede, Clara era o exemplo a ser seguido: boas notas, educação, gentileza, bom comportamento e “beijo, só depois do casamento”.
Algumas cenas do passado passaram rapidamente pela minha cabeça. Perguntei-me: por que eu havia voltado? Sou um bem sucedido astro-físico, mestre e doutor reconhecido mundialmente, ainda que não completamente realizado. Sempre sonhara em tornar-se jogador profissional de badminton, mas os fins de semanas já me pareciam mais que suficientes. Semana passada, um convite apareceu na minha porta. “Venha para a Noruega... Oportunidade que apenas seu currículo dispõe das demandas capazes de suprir, COM URGÊNCIA...”. E, no entanto, não me parecia algo prioritário naquele momento. Assim chegar nessa praça me fez ter certeza. Tinha voltado atrás da mulher da minha vida: Gema... ou melhor, Clara.

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