O colunista da Folha de São Paulo, e também brilhante ex-atleta do Cruzeiro de Belo Horizonte, Tostão, afirmou categoricamente em sua coluna de ontem, que "a única chance de o Cruzeiro ou outro time ser campeão é o São Paulo relaxar. Muricy já deve estar atento. Ele pensa em tudo". Para os que tiveram a oportunidade de lê-la, não deixarão de notar que o trecho em destaque encontra-se no último parágrafo, e notadamente, não deixarão de afirmar que eu li apenas isso; afirmo, no entanto, para quem possa interessar, que esse mero são-paulino leu o texto integralmente, com atenção, por pelo menos duas vezes... O sujeito destacou o equilíbrio tático das equipes que lideram o Brasileirão, e ressaltou que, por vezes, equilíbrio exagerado pode transformar-se em falta de ambição, mal que afeta o Fluminense do cantor Chico Buarque; ressaltou as diferenças que levaram o apático time de Paulo Autuori, a ser hoje o único em reais condições de alcançar o São Paulo na liderança nas mãos de Dorival Júnior; falou do aspecto "ciber" do líder, que o impede de ser ameaçado.
Assistindo ao jogo de ontem a noite, entre Atlético Mineiro e São Paulo, no Mineirão, a coluna de Tostão me veio imediatamente. De forma aparente, o melhor zagueiro em atividade, hoje, no futebol brasileiro, o excepcional Miranda, não se encontrava nem no banco de reservas da equipe visitante. Miranda reserva do São Paulo, ou o professor está louco ou com brincadeira de mal gosto. No entanto, a justificativa era legitima: Miranda entrou nessa rodada do campeonato, pendurado com dois cartões amarelos, e mais um significaria suspensão por uma partida; como no final de semana, além do Brasileirão, a Seleção estará em campo e o defensor Alex Silva está convocado, iminente era o risco de, na pior das hipóteses, Muricy contar com apenas dois zagueiros no elenco profissional para a próxima partida, frente o Vasco no Rio.
É evidente. Muricy Ramalho realmente pensa em tudo: ao colocar Alex Silva, Breno e André Dias, em detrimento de Miranda, não correu riscos e têm três zagueiros em condições de escalar no sábado. Evidente, também, que não pensa sozinho, mas sim, em conjunto com a comissão técnica que ganhou um Mundial, uma Libertadores e um Brasileiro no São Paulo, sem contar com a conquista dessa temporada, em apenas 3 anos; se Muricy não esteve em todas, eles estavam...
É consenso, no entanto, que nenhum são-paulino em regime de sobriedade deve comemorar um resultado como o 0 a 0 de ontem. Ao deixar dois pontos em Minas, obriga-se a conquistar duas vitórias nos difíceis confrontos que tem pela frente: jogo em São Januário contra o Vasco, contra o Eurico e contra a arbitragem, no único reduto intacto do Brasileirão 2007, e depois o classico no Morumbi, contra o Santos, do decadente mas perigoso Vanderlei Luxemburgo. Muricy, você pensou em tudo, mas acabou esquecendo a vitória...
Deve-se notar, contudo, que não faltaram chances de alcança-la. No primeiro tempo, após o "apagão" no estádio, a mudança tática do treinador, trazendo Jorge Vágner para o meio e abrindo Richarlyson na esquerda, foi benéfica, mesmo que todos os adversários já a conheçam; fez o São Paulo sair da forte marcação imposta pelos mineiros e o fez impor o seu ritmo, até a contusão de Alex Silva; essa obrigou a queima de uma substituição mas não a queda de rendimento, ainda que com Richarlyson recuado como terceiro zagueiro e Jorge Vágner novamente na esquerda. No segundo tempo, então, as coisas estiveram bem encaminhadas mas Muricy se perdeu. Substituiu de forma pragmática os atacantes Dagoberto e Aloísio, por Borges e Diego Tardelli, e foi incapaz de enxergar a boa opção de colocar o lateral Júnior, no lugar de Leandro, e reconduzir Jorge Vágner para o meio, onde ele mostra ser o mais lúcido atleta do elenco tricolor. Além dessas alternativas, no primeiro tempo Dagoberto e Jorge Vágner perderam gols absurdos, sendo que o segundo cobrou uma falta com perfeição na trave esquerda do goleiro do Atlético Mineiro, e no segundo, o árbitro deixou de marcar um pênalti clamoroso para o time líder do campeonato; lamentável...
Ao final, Rogério Ceni saiu como herói (novidade?) ao agarrar um pênalti e garantir o resultado. Contudo, se Muricy continuar pensando em tudo, como disse Tostão, o título, fatalmente, será questão de tempo. Considerando, ainda, que o Cruzeiro vem abrindo mão de suas chances, ontem derrota para o Juventude com belíssimo gol do ex-são-paulino Tadeu, em menos tempo do que Muricy pensa...