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terça-feira, 20 de julho de 2010

Obrigado por tudo Dr. Turíbio


Não é fácil mudar. Mudanças pressupõem concessões que, em regra, não são simples, ou agradáveis. Mais difícil, porém, é sacar a hora certa de mudar. Às vezes, as opções estão enevoadas, e não dá para saber com certeza, mais tarde, se outra saída haveria de ser melhor. E aí, nem arrependimento resolve as coisas. Ainda que arrepender-se também implique um erro.
Ontem foi o Dia do Futebol. Tá, e daí? A verdade é que quando a semana parece que vai começar assim, boa, uma notícia tem o potencial de reverter tudo. Uma nota, que seja. Deixa estar...
Antes disso, cabe uma ponderação a respeito dos resultados pós-Copa do São Paulo e de Ricardo Gomes. A volta ao Brasileirão se deu em casa, em uma data especial. Mais especial e importante, eu diria, que essa segunda-feira que homenageia o Rio Grande, o clube mais antigo do País. A quarta-feira, 14 de julho, mais que da Queda da Bastilha é o dia da redenção. Foi em um 14 de julho que o São Paulo se tornou o primeiro e único brasileiro tri-campeão da América. Formidável, o dia que nunca precisaria terminar.
E o cenário acabou por ser sarcástico. Não bastasse a derrota para o Avaí, que é o menos importante em toda a situação, era o Avaí de Antônio Lopes. O esposo da D. Elza, o mesmo técnico que sentou no banco de reservas dos visitantes naquela final de Libertadores brasileira. Foi como, digamos assim, uma singela revanche, ou ao menos, um acerto de contas, na medida em que o valor dos resultados acaba por ser infinitamente distintos.
Tudo isso faz parte.

Na rodada seguinte, no sábado, o tricolor perdeu no Nordeste uma invencibilidade de quase uma década, contra o Vitória. Menos representativa. Muito menos, por exemplo, que os tabus de perder para o Corinthians depois de quatro anos, ou não vencê-los com dois jogadores a mais em campo, ou a derrota em casa pela Libertadores depois de 19 anos (não é querer ser mais real que o Rei, mas todos os fracassos citados sob comando de Muricy Ramalho, que verdade seja dita, era o corajoso treinador do primeiro gol do Mito Maior Rogério Ceni).
Em linhas gerais, são resultados mais do que normais, para não dizer esperados, se você analisar friamente. O problema é o que eles representam.

Desde 2006, o São Paulo não ia a uma semifinal de Libertadores. Faltavam quatro jogos para esse esperadíssimo retorno. Agora faltam dois...

Mas, antes, um pequeno adendo. A notícia, ou a nota, capaz de estragar o dia do futebol, é a exoneração ainda sem explicação plausível de Turíbio Leite de Barros. Um dos, para não dizer o fisiologista mais renomado e respeitado da América Latina. Mais de duas décadas de serviços prestados ao clube, um dos mentores do Centro de Reabilitação e Fisiologia, que fazem do São Paulo referência internacional, parte integrante e carro-chefe da comissão técnica permanente, que participou das duas mais gloriosas trajetórias da história do São Paulo: a era Telê e a era Ceni.

Comunicados, justificativas, desmentidos por assim dizer, são de praxe. Alguns desses falam em reestruturação, em reposicionamento. Outros dão conta de que as atividades paralelas do requisitado profissional (pessoas competentes pagam esse ônus em qualquer ramo da vida) não comportam os interesses do clube. Entre outros motivos divulgados, nenhum é realmente convincente.



Esse é o ponto. E o momento de refletir a respeito das mudanças. Mudar por mudar, nunca é uma solução acertada. E estabilidade sempre foi um dos segredos do sucesso do São Paulo. Dr. Turíbio, como já assinalado, fez parte de uma vencedora, respeitada e reconhecida comissão técnica. Ao lado do auxiliar Milton Cruz, do preparador físico Carlinhos Neves, do preparador de goleiros Haroldo Lamounier, dos médicos José Sanchez e Marco Aurélio Cunha, dos fisioterapeutas Luís Rosan e Roberto Sasaki, dos massagistas Ailton e Almir, do roupeiro Valdeci, entre outros, além dos trabalhos da diretoria com Júlio Cesar Cesares, João Paulo de Jesus Lopes, o saudoso Marcelo Portugal Gouveia, até o presidente Juvenal Juvêncio. Esse “corpo”, essa “coluna vertebral”, comandou e comanda o São Paulo. Que não é partidário de certos meandros que contaminam o futebol.

É notória a passagem na qual o Dr. Luís Rosan, há mais de vinte anos no São Paulo e fisioterapeuta da Seleção Brasileira há mais de uma década, poderia ter se desligado do clube. Há uns quatro anos, mais ou menos, ele já se sentia cansado da rotina estafante de uma megalópole como São Paulo, e se via receptivo a ideia de respirar novos ares com a família, literalmente. E uma proposta do Santos era a união do útil com o agradável, da fome com vontade de comer. Em uma reunião com a diretoria, Rosan explicara que o problema não era o salário, nem as condições de trabalho no São Paulo. Mas sim, o bem que seria viver mais tempo na cidade litorânea. Pois bem. Se esse era o “problema”, a diretoria tricolor não titubeou. Deu seis meses de licença, de recesso, para seu fisioterapeuta, sem um milésimo de corte no salário. Era receber para descansar, para voltar depois. Não é do feitio, da natureza tricolor, desperdiçar, ainda mais para um rival, tamanha e valorosa mão-de-obra. Seria, quase como agora, uma recusa as próprias origens, renegar o passado. Moral da história: Rosan continua como funcionário do São Paulo.

Mudanças no clube, aliás, já foram muito raras. Entre 2004 e 2009, o São Paulo não demitiu um treinador sequer, ainda que tenha perdido três Libertadores, outra infinidade de Paulistas, uns brasileiros... Isso, aliás, fez do banco de reservas do Morumbi a ambição profissional de três quartos dos treinadores em atividade no País.

Por essas e outras, fica muito complicado entender o que há na saída do Dr. Turíbio. Ao que parece, o clube também assinala que pode se virar sem um fisiologista na comissão técnica. Mas aí a questão. Precisou por 25 anos e agora não precisa mais? O silêncio incomoda nessa altura. Qualquer um que acompanha a trajetória são-paulina, de longe ou de perto, está no mínimo estupefato, pode dizer-se traído, sendo mais radical.

Recebi com pesar a notícia. E me pus a refletir sobre mudanças.

As informações são de que o treinador Ricardo Gomes pode não amanhecer a quinta-feira no Morumbi, caso não vença o Grêmio Prudente, no Brasileiro. Aquela segurança que a comunidade tricolor sentia de que o trabalho seguiria sendo feito da maneira mais correta, cai por terra. O panorama é sintomático. Vencer o time mais novo da primeira divisão, em casa, não é a resposta para os problemas, para as soluções. Como perder, não quer dizer que as coisas estão erradas. Resultado explica uma parte do fato. O treinador está longe de ser unanimidade no tricolor. Mas é preciso ter respeito pelos profissionais que se tem, que faltou com Dr. Turíbio, que já havia faltado com Roberto Rojas (demitido do cargo de treinador no final de 2004, depois de ter colocado o São Paulo na Libertadores após uma década de ausência – caiu no ostracismo e perdeu ainda o posto de treinador de goleiros, sem saber por que estava de saída). Mudar e mudar meio que a esmo é o que está na gênese de um tanto de fracassos de clubes, Brasil a fora.

Se pode haver um consolo, os nomes especulados são de estirpe. Adilson Baptista e Silas, os favoritos hoje, são tão ou quão melhores que Ricardo Gomes – não há nome páreo para Dr. Turíbio. Silas está mais fora que dentro do Grêmio hoje e construiu um vinculo como jogador que o qualifica a voltar como técnico; Adilson já foi sondado em outros carnavais, está desempregado e tem mais partidários na cúpula tricolor que o próprio Ricardo. Seja como for, se deram o tempo de parada para a Copa do Mundo para Gomes trabalhar o time, que agora deixem-no fazer o trabalho dele. Não se avaliza competência em quatro, quem dirá, dois jogos. Sem falar que trocar agora, apenas por trocar, para atender uma vaidade, é simplesmente inócuo – como não se vislumbra um panorama razoável para a saída de Dr. Turíbio, nesse novo São Paulo. O que Ricardo deixou de fazer em mais de quarenta dias, antes da semifinal da Libertadores, não será feito diferente por um treinador que cair agora, menos de uma semana para o começo da decisão da vaga. Uma troca agora é atestar incompetência, de erro de avaliação – como seria por para fora sem “pompa” e “circunstância” alguém com 25 anos de casa... A decisão do treinador que joga a chance do Tetracampeonato sul-americano deveria ter sido feita antes da paralisação do Mundial da África. É terrível admitir, mas agora já é tarde. Como também será tarde, depois, para saber se a escolha terá sido a melhor. Devaneios de quem muda.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Feitos um para o outro


do Fifa.com

A relação do atacante Fernandão com o São Paulo ainda não tem nem duas semanas de duração, mas parece vir de longa data. Na verdade, depois de uma estreia impecável na vitória sobre o Cruzeiro por 2 a 0, que só ajudou a reforçar a empatia do experiente meia-atacante com a torcida, talvez não fosse exagero pensar que o jogador e o clube foram feitos um para o outro.

As trajetórias do veterano e do time hexacampeão brasileiro já se cruzaram diversas vezes, mas só agora se coincidem. Ambas as partes esperam que o segundo passo dessa vida conjugal, na partida de volta pelas quartas de final da Copa Libertadores da América, nesta quarta-feira, no Morumbi, seja ainda mais próspero.

A diretoria são-paulina nunca escondeu muito bem o desejo de contar com Fernandão, que já defendeu Goiás, Internacional, o Al-Gharafa do Catar, e, na França, Olympique de Marselha e Tolouse. Não demoraria, então, para que seu nome passasse a ser especulado como uma aposta de reforço entre os torcedores, que se dedicaram a cortejá-lo.

“O contato com o torcedor tricolor já vem de um bom tempo. Existia esse rumor de que poderia vir. Então, quando passava aqui em São Paulo, ou quando me encontrava com são-paulinos Brasil afora, sempre me trataram superbem, foram muito gentis. Em todos os lugares e gente de toda classe”, diz o jogador de 32 anos ao FIFA.com. “Isso aí sempre me deu muito ânimo de poder vir para cá.”

No princípio era o flerte
Após um longo namoro, o clube conseguiu realizar a contratação neste mês de maio, apresentando Fernandão no dia 8. No dia 12, ele já estava em campo no Mineirão, para dar um belo passe na jogada do primeiro gol e, depois, fazer a assistência, de calcanhar, para o segundo. Tudo à primeira vista.

“Quando se concretizou essa possibilidade de jogar, foi criada uma expectativa muito maior”, disse. "Ter feito a partida de estreia da maneira que fiz, o time ter vencido do jeito que foi, ajudou mais ainda. Foi o cartão de visita. Fiquei muito feliz com minha atuação e ainda mais pela vitória.”

A primeira sondagem por parte do São Paulo aconteceu em 2007, por meio de Tata, auxiliar do ex-técnico do clube, Muricy Ramalho, quando o vínculo de Fernandão com o Inter, pelo qual venceu a Copa do Mundo de Clubes da FIFA Japão 2006, estava por vencer. “Ele comentou comigo que, se tivesse a possibilidade de conversar com o pessoal, havia interesse. Mas acabou que renovei na época”, afirma. O jogador ficou no Colorado até o fim de 2008 e, depois, se transferiu para o Al-Gharafa, do Catar. Quando retornou ao país, fechou com o Goiás. Até retomar as conversas com o time tricolor.

Operação França
Se Muricy já não está mais no clube, Fernandão agora reencontrou Ricardo Gomes, conhecido de sua passagem pela França, entre 2001 e 2004. Os dois chegaram a se enfrentar, nas contas do atacante, por pelo menos quatro ocasiões, embora o contato não fosse muito próximo. “Conversamos pouco sobre essa época, sobre o Bordeaux, o Marselha. É claro que ele tem uma vida muito mais vinculada à França do que eu. Guardei muitos amigos, mas não pude retornar sempre.”

Outro ponto que estreita essa conexão francesa e, ao mesmo tempo, tricolor é a admiração de Fernandão pelo futebol do ex-meia Raí, ídolo são-paulino nos anos 90, a quem foi comparado em Marselha até em manchete de jornal. “Sempre foi um cara que admirei, que não deixa de ser uma referência. Mas acho que a semelhança fica mais na aparência física, por ser um pouco mais alto e por saber jogar com a bola por baixo. Quando cheguei lá, achavam que eu só jogava por cima, mas, quando mostrei que podia fazer tabelas, bons passes, acho que fizeram essa ligação. Mas deixo essa comparação bem longe, porque o Raí é outra coisa.”

De sua experiência na Ligue 1, Fernandão valoriza seu aprendizado tático. Foi lá que a função de meia passou a ser associada definitivamente à de atacante, citando os técnicos Albert Emon e Alain Perrin como figuras importantes nesse crescimento. “Nunca fui um jogador de área, aquele que só tromba com zagueiros. Sempre fui de muita movimentação e de buscar o jogo, de toque de bola, tabelar, proteger e segurar”, afirma. “Mas o grande impulso da minha carreira sem dúvida nenhuma foi na França. Já jogava algumas partidas como meio-campista no Brasil, mas lá cresci muito como jogador, porque passei a olhar o jogo de outra maneira, a me posicionar melhor dentro de campo, a jogar de frente para o gol e saber enfiar uma bola, penetrar no espaço vazio.”

A primeira impressão é a que fica?
Essa bagagem tática certamente o ajudou a ter mais uma bem-sucedida estreia na carreira. Checando o currículo do atleta, sua apresentação contra o Cruzeiro não chega a ser surpreendente. “Não fiz muitas estreias, porque não joguei em muitos clubes. No Goiás, como profissional, foi em 1995, com 17 anos. Foi muito boa, e saí como o melhor em campo. Ganhei prêmios e pude ter uma sequência como titular nessa idade. No Toulouse, quando estava mais ambientado ao país, ganhamos fora de casa, contra o Lille. No Inter, foi logo num Gre-Nal, e ganhamos por 2 a 0, sendo que eu fiz o gol mil da história do clássico. No Catar, estreei fazendo dois gols”, enumera. “E agora estreei neste jogo desta forma.”

Seu toque de bola, facilitando a aproximação dos velozes Marlos e Dagoberto e do habilidoso Hernanes, foi fundamental para isso, desequilibrando na vitória contra um rival que até então estava invicto em casa. Ao final do jogo, Ricardo Gomes, depois de parcas sessões de treino com o veterano, afirmou que ele parecia um jogador do clube há anos. O que não espanta Fernandão.

“Estou me sentindo de um jeito que parece realmente que estou há muito tempo no São Paulo”, disse. “Aqui - e não falando só de jogador, mas de segurança, roupeiro, massagista, fisioterapia, de todo mundo - é incrível como eles te acolhem e tratam bem. Então, a única coisa que você tem de fazer é treinar bem e ir para o campo.”

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Os brasileiros "Verón" apenas um "tri-campeón" da Libertadores


Pois é.

Assim é a vida.

Muitos querem, alguns tentam, poucos conseguem.

Particularmente foi impossível torcer contra o Capitão América, contra o Queniano Luso-Brasileiro, contra o Gladiador Azul, ingrato, mas que ainda assim é sangue do meu sangue.

Vai ficar para próxima.
Aquilo que nem Tostão e Dirceu Lopes conseguiram.

Mas que Ceni já trouxe.

Como Verón atingiu ontem.

Ambos pra lá de trinta.

Ambos pra lá de gênios.

Ambos pra lá de satisfeitos com a camisa que vestem.

Porque usam por amor e vocação!

O que faltava para imortalizá-los.

Não falta mais...

terça-feira, 14 de julho de 2009

A mística da fidelidade


Em seu livro, às vésperas de completar 19 anos com a mesma camisa, Rogério Ceni expõe os valores que poderiam nortear a sempre prometida Reforma Política

O futebol, feito a arte, imita a vida. E às vezes, tanto um quanto o outro, são capazes de recriá-la; cada um ao seu modo. A sabedoria popular incorporou isso para si. E não foi a primeira, nem a será a última vez que essa constatação é feita. Em especial pela simplicidade e pelo alcance. O futebol, enquanto esporte de massa no Brasil, também é suficientemente capaz de ensinar a perder e a ganhar. Embora, por natureza, não esqueça os empates.

E o futebol, bem como a vida, é feito de pessoas. Juca Kfouri, talvez a maior referência viva em jornalismo esportivo, disse outro dia que “Rogério Ceni é um personagem com passado, presente e muito futuro”. E esse personagem, um dos sinônimos de futebol e, porque não, de esporte coletivo no País, que é o único pentacampeão mundial, reuniu em livro as histórias vividas sob a meta do único clube brasileiro três vezes campeão do mundo, o São Paulo Futebol Clube. Pelas mãos do jornalista André Plihal e pela memória do goleiro Rogério Ceni, 57 passagens foram compiladas nas 204 páginas de Maioridade Penal - 18 Anos de Histórias Inéditas da Marca da Cal Contadas por André Plihal (Panda Books, 1ª edição, R$ 35). Mais do que uma obra para são-paulinos, um título para quem quer entender a fase mais ‘revolucionária’ entre goleiros na história do futebol brasileiro. Numa posição que se pautou sempre por evitá-los, Rogério subverteu a função e foi fazer gols, tornou-se o maior artilheiro do São Paulo em Copas Libertadores com 10 gols; depois dele, goleiro que não sabe jogar com os pés passou a ser figura descartável. Talvez porque sempre tenha sido.

Mas a representatividade de Rogério Ceni, o maior ídolo e atleta que mais vestiu a camisa na história do São Paulo com 857 partidas (240 a mais que Valdir Peres, segundo na lista), pode ser mensurada nas palavras de um adversário. O corintiano Marcos Teles de Menezes, sócio-torcedor de um dos principais rivais do time paulista, o Sport Clube Corinthians Paulista, lembra que o goleiro “não é um jogador qualquer, porque ele é daqueles caras que faz você sentir inveja do teu rival”. Rogério, mesmo sem ser unanimidade, consegue ser “mais que um jogador, ele se torna a alma da equipe, o que nós [corintianos] sabemos reconhecer, mesmo sendo um adversário” afirma Menezes. E os famigerados números dão razão ao bravo torcedor. Ceni ganhou um mundial, um sul-americano e se tornou o primeiro capitão a erguer três vezes consecutivas o título nacional. O ‘goleiro’ já contabiliza 47 de falta e 36 de pênalti, absurdos 83 gols que o colocam nas páginas do Guinness Book como maior artilheiro da posição em toda a história.

Em Maioridade Penal - 18 Anos de Histórias Inéditas da Marca da Cal Contadas por André Plihal a dupla revela detalhes de histórias que ainda não haviam sido contadas, além de passagens engraçadas e marcantes de Rogério Ceni. Em fevereiro, o jogador renovou contrato com o São Paulo até 31 de dezembro de 2012; em sete de setembro, na Independência do Brasil, ele ultrapassa Pelé e completa 19 anos ininterruptos com a mesma camisa, atingindo o topo da lista no Brasil. Aos 36 anos, até hoje, metade da vida de Ceni foi dedicada ao clube do coração. Em janeiro, no seu aniversário, questionado sobre a relação com o emprego, o São Paulo, disse que “não trabalho aqui, mas vivo isso aqui”.

Numa realidade em que, por exemplo, 1176 atletas se transferiram do Brasil para o exterior em 2008, Ceni definitivamente é exceção. É exceção, pelo simples fato do Brasil ainda discutir uma reforma política na qual se enquadre a regulamentação do que se entende por infidelidade partidária. Como sempre se cobrou do goleiro do São Paulo, titular nos últimos doze anos, lealdade aos seus princípios, o mínimo seria esperado de um representante escolhido no povo, que ao menos, observasse a coerência no que diz respeito à camisa que veste, ao partido que vincula o próprio nome. Conforme assinala o professor de Ciência Política Sérgio Braga em seu artigo O estudante de pós-graduação em sociologia política da UFPR (Universidade Federal do Paraná) a “migração partidária é um dos principais fatores que contribuem para a fraqueza dos partidos brasileiros, por seu caráter fracamente institucionalizado, fragmentado e fisiológico”. Em certa altura, o professor ainda aponta como o “excesso de mudanças de partido por parte dos parlamentares” dificulta a definição ideológica dos partidos. Rogério não teria nada a temer diante do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

A instituição, aliás, define como exceções ao processo de infidelidade se a sigla pelo qual o político se elegeu fundir-se a outra, se o parlamentar deixa o partido para fundar uma nova legenda, diante de mudança substancial, na qualificação do TSE, na linha ideológica do partido, em situações onde se comprove perseguição interna ao “infiel”. A despeito dessas peculiaridades, o doutor em Ciência Política Emerson Urizzi Cervi não crê que a infidelidade partidária seja benéfica para o cenário político nacional. Nem o posicionamento do professor da Universidade Federal do Paraná e da Federal de Ponta Grossa pode ser maculado pelo coração irrefutavelmente são-paulino.

A mudança financeira, a simples indiferença ou sentimento de traição por parte do político, diante das alterações ideológico-partidárias da sigla são apontados por Cervi nas andanças do ‘elegíveis’. Rogério tem salário estimado em pelo menos 300 mil reais mensais, o maior de um atleta profissional no Brasil, além do que uma faixa recorrente em “sua casa”, nas arquibancadas do estádio do Morumbi, parece selar a relação e afastar qualquer resquício de traição: ‘todos tem goleiro; só nós tempos Rogério’. “Partidos sem identidade ou ideologia partidária, as chamadas legendas de aluguel, são particularmente significativos na infidelidade” adverte Cervi. O São Paulo se notabiliza entre os maiores clubes do Brasil por historicamente refutar qualquer natureza de parcerias com siglas privadas; seus maiores rivais preferem caminhos diferentes, feito o Corinthians, com a Hicks Muse e a MSI, e o Palmeiras, com a Parmalat e a Traffic.

“Parte do eleitorado não considera isso importante, na medida em que leva em conta outros aspectos na hora de decidir o voto” observa Cervi. Qualquer são-paulino reconsideraria seus paradigmas, caso visse Rogério Ceni adentrando o gramado do Morumbi, não trajando tricolor, mas vestindo alviverde ou alvinegro.

Ídolos: pra que?

Rogério Ceni foi protagonista de uma geração gloriosa do São Paulo. Com a faixa de capitão, conquistou o Estado, o País (três vezes consecutivas), o continente e o mundo. Nunca um goleiro havia marcado gol num Mundial da Fifa. Nunca até o advento de Ceni. Que não se contentou e acabou o torneio como melhor jogador da decisão e melhor jogador do torneio. Ganhou a Bola de Ouro e um carro da patrocinadora. Recusou o veículo e dividiu o valor correspondente entre os funcionários do clube: o massagista, a cozinheira, o zelador, o roupeiro e mais uma dúzia de gente que viu o rapaz entrar no Morumbi um moleque de 18 anos e sair um homem e pai de 36.

Antes de Ceni, nenhum jogador que não fosse de um clube europeu havia ficado entre os 50 finalistas do prêmio da revista France Football, referência no planeta quando o assunto é futebol. “Chega a ser intrigante o nível de perplexidade diante da imagem de uma pessoa que é tão igual a ela” pondera a professora de sociologia e antropologia Luciene Pazinato da Silva nesse aspecto, lembrando do fã diante do seu ‘Rogério Ceni’. Completando, ainda, que “há uma necessidade, inclusive, inerente a determinadas camadas sociais de ter um ídolo”.

O psicoterapeuta Jungano e professor de neuropsicologia Tito Lívio Ferreira Vieira repassa como essa é uma característica essencialmente ligada ao jovem. “Embora não seja exclusiva deles, há uma tendência muito grande na sociabilidade e em se ver representado”. Na alusão às figuras que não sejam exemplos de conduta social, o psicoterapeuta explica que “os jovens passam a ter uma identificação com o ídolo, a partir disso advém a imitação, ainda que inconsciente, e em casos de transgressores e de maus exemplos, arrebata correligionários problemáticos na mesma intensidade”.

“A imagem do político enquanto ídolo fica muito mais forte durante as campanhas” responde Luciene, e que essa medida pode definir, mesmo, o resultado nas urnas; a expectativa criada nesses períodos, aliás, define muito bem a relação com o ídolo para a professora. Vieira vai além e avalia que “todos nós, seres humanos, naturalmente a partir do nosso inconsciente coletivo, temos a tendência de produzir mitos. A alma, a psique, tem uma natureza mito-poética”. O especialista vale-se da teoria para confirmar a extemporaneidade dessa figura mítica. “Carl Jung assinala que é uma necessidade, e o mito do herói não será manifestado em todas as pessoas, nem todo tempo, e sim em determinados momentos” define.

Ronaldo declarou para Juca Kfouri, Clóvis Rossi, Mônica Bergamo e Xico Sá, em sabatina da Folha de São Paulo outro dia, que “o brasileiro é tão carente de ídolos e heróis que o futebol preenche isso para o povo”. O único jogador na história a ser eleito três vezes pela Fifa o melhor do planeta e o ser humano com mais gols em Copas do Mundo deve ter alguma idéia do que está falando. Ainda que não tenha ficado 19 anos ininterruptos em nenhum clube, e tenha sido infiel em duas das maiores ‘capitais’ do futebol do planeta: em Milão, deixou a Internazionale para mais tarde se transferir ao Milan; e na Espanha, da Catalunha para Madrid, na maior rivalidade interclubes do mundo, saindo do Barcelona para defender as cores brancas do Real.

Após dois gols no Morumbi, a constatação: caráter, ou se tem ou não se tem...


não houveram pênaltis no Morumbi, no clássico que reuniu uma dezena de campeonatos brasileiros, taça de bolinhas e essas coisinhas
pelo menos não dentro da área
Miranda foi derrubado sob a linha, e embora justifique a infração, tecnicamente, sob a linha é fora da área...
não há um São Paulo sem Ceni, definitiva e infelizmente
menos pela falha de Dênis, em quem acredito nascer um substituto aceitável, mais pela organização falha do time e do grupo
como sãopaulino não aceito um herdeiro para Rogério que não um feito no CT da Barra Funda
se bem que como metido a goleiro nas horas vagas, não reputo aquilo como erro, mas como um acidente, acontece
erraram, feio, na rodada décima do brasileiro, o Douglas e o ótimo Andrey, não o Dênis
Miranda brilha sozinho, e a decadência técnica dos expoentes é deprimente, preocupante, lastimável
Zé Luis tem sido menos eficiente que o costume do lado; não há até o momento alguém pela direita da zaga, para que André Dias fixe-se na sobra onde sobra; não há perspectivas aparentes pelo lado esquerdo; Jean perdeu em segurança; Jorge Wagner em eficiência; Hugo, lamentavelmente, mantém a instabilidade inerente ao seu pouco futebol; e Hernanes é um caso absolutamente sem explicação, o problema não parece técnico, nem físico, nem das quatro linhas... parece estar além da compreensão da comissão técnica, da ciência e da química do futebol, do próprio atleta.
há um ano as coisas estavam nessa linha, com a diferença de que o comandante tinha mais tempo de casa, o que no frigir dos ovos pode ser uma diferença
embora, há um ano, a fase aparentasse ser menos pior (sic) e a sorte menos distante
honestamente, o retorno de Ceni pode ser a última esperança, a única que morre...



* Adriano não comemorou o gol, mostrou respeito, gratidão e honra. Pode ser uma bobagem, mas é uma escancarada demonstração de caráter. Nossa sociedade, em regra, reputa isso como bobagem.