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terça-feira, 14 de julho de 2009

A mística da fidelidade


Em seu livro, às vésperas de completar 19 anos com a mesma camisa, Rogério Ceni expõe os valores que poderiam nortear a sempre prometida Reforma Política

O futebol, feito a arte, imita a vida. E às vezes, tanto um quanto o outro, são capazes de recriá-la; cada um ao seu modo. A sabedoria popular incorporou isso para si. E não foi a primeira, nem a será a última vez que essa constatação é feita. Em especial pela simplicidade e pelo alcance. O futebol, enquanto esporte de massa no Brasil, também é suficientemente capaz de ensinar a perder e a ganhar. Embora, por natureza, não esqueça os empates.

E o futebol, bem como a vida, é feito de pessoas. Juca Kfouri, talvez a maior referência viva em jornalismo esportivo, disse outro dia que “Rogério Ceni é um personagem com passado, presente e muito futuro”. E esse personagem, um dos sinônimos de futebol e, porque não, de esporte coletivo no País, que é o único pentacampeão mundial, reuniu em livro as histórias vividas sob a meta do único clube brasileiro três vezes campeão do mundo, o São Paulo Futebol Clube. Pelas mãos do jornalista André Plihal e pela memória do goleiro Rogério Ceni, 57 passagens foram compiladas nas 204 páginas de Maioridade Penal - 18 Anos de Histórias Inéditas da Marca da Cal Contadas por André Plihal (Panda Books, 1ª edição, R$ 35). Mais do que uma obra para são-paulinos, um título para quem quer entender a fase mais ‘revolucionária’ entre goleiros na história do futebol brasileiro. Numa posição que se pautou sempre por evitá-los, Rogério subverteu a função e foi fazer gols, tornou-se o maior artilheiro do São Paulo em Copas Libertadores com 10 gols; depois dele, goleiro que não sabe jogar com os pés passou a ser figura descartável. Talvez porque sempre tenha sido.

Mas a representatividade de Rogério Ceni, o maior ídolo e atleta que mais vestiu a camisa na história do São Paulo com 857 partidas (240 a mais que Valdir Peres, segundo na lista), pode ser mensurada nas palavras de um adversário. O corintiano Marcos Teles de Menezes, sócio-torcedor de um dos principais rivais do time paulista, o Sport Clube Corinthians Paulista, lembra que o goleiro “não é um jogador qualquer, porque ele é daqueles caras que faz você sentir inveja do teu rival”. Rogério, mesmo sem ser unanimidade, consegue ser “mais que um jogador, ele se torna a alma da equipe, o que nós [corintianos] sabemos reconhecer, mesmo sendo um adversário” afirma Menezes. E os famigerados números dão razão ao bravo torcedor. Ceni ganhou um mundial, um sul-americano e se tornou o primeiro capitão a erguer três vezes consecutivas o título nacional. O ‘goleiro’ já contabiliza 47 de falta e 36 de pênalti, absurdos 83 gols que o colocam nas páginas do Guinness Book como maior artilheiro da posição em toda a história.

Em Maioridade Penal - 18 Anos de Histórias Inéditas da Marca da Cal Contadas por André Plihal a dupla revela detalhes de histórias que ainda não haviam sido contadas, além de passagens engraçadas e marcantes de Rogério Ceni. Em fevereiro, o jogador renovou contrato com o São Paulo até 31 de dezembro de 2012; em sete de setembro, na Independência do Brasil, ele ultrapassa Pelé e completa 19 anos ininterruptos com a mesma camisa, atingindo o topo da lista no Brasil. Aos 36 anos, até hoje, metade da vida de Ceni foi dedicada ao clube do coração. Em janeiro, no seu aniversário, questionado sobre a relação com o emprego, o São Paulo, disse que “não trabalho aqui, mas vivo isso aqui”.

Numa realidade em que, por exemplo, 1176 atletas se transferiram do Brasil para o exterior em 2008, Ceni definitivamente é exceção. É exceção, pelo simples fato do Brasil ainda discutir uma reforma política na qual se enquadre a regulamentação do que se entende por infidelidade partidária. Como sempre se cobrou do goleiro do São Paulo, titular nos últimos doze anos, lealdade aos seus princípios, o mínimo seria esperado de um representante escolhido no povo, que ao menos, observasse a coerência no que diz respeito à camisa que veste, ao partido que vincula o próprio nome. Conforme assinala o professor de Ciência Política Sérgio Braga em seu artigo O estudante de pós-graduação em sociologia política da UFPR (Universidade Federal do Paraná) a “migração partidária é um dos principais fatores que contribuem para a fraqueza dos partidos brasileiros, por seu caráter fracamente institucionalizado, fragmentado e fisiológico”. Em certa altura, o professor ainda aponta como o “excesso de mudanças de partido por parte dos parlamentares” dificulta a definição ideológica dos partidos. Rogério não teria nada a temer diante do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

A instituição, aliás, define como exceções ao processo de infidelidade se a sigla pelo qual o político se elegeu fundir-se a outra, se o parlamentar deixa o partido para fundar uma nova legenda, diante de mudança substancial, na qualificação do TSE, na linha ideológica do partido, em situações onde se comprove perseguição interna ao “infiel”. A despeito dessas peculiaridades, o doutor em Ciência Política Emerson Urizzi Cervi não crê que a infidelidade partidária seja benéfica para o cenário político nacional. Nem o posicionamento do professor da Universidade Federal do Paraná e da Federal de Ponta Grossa pode ser maculado pelo coração irrefutavelmente são-paulino.

A mudança financeira, a simples indiferença ou sentimento de traição por parte do político, diante das alterações ideológico-partidárias da sigla são apontados por Cervi nas andanças do ‘elegíveis’. Rogério tem salário estimado em pelo menos 300 mil reais mensais, o maior de um atleta profissional no Brasil, além do que uma faixa recorrente em “sua casa”, nas arquibancadas do estádio do Morumbi, parece selar a relação e afastar qualquer resquício de traição: ‘todos tem goleiro; só nós tempos Rogério’. “Partidos sem identidade ou ideologia partidária, as chamadas legendas de aluguel, são particularmente significativos na infidelidade” adverte Cervi. O São Paulo se notabiliza entre os maiores clubes do Brasil por historicamente refutar qualquer natureza de parcerias com siglas privadas; seus maiores rivais preferem caminhos diferentes, feito o Corinthians, com a Hicks Muse e a MSI, e o Palmeiras, com a Parmalat e a Traffic.

“Parte do eleitorado não considera isso importante, na medida em que leva em conta outros aspectos na hora de decidir o voto” observa Cervi. Qualquer são-paulino reconsideraria seus paradigmas, caso visse Rogério Ceni adentrando o gramado do Morumbi, não trajando tricolor, mas vestindo alviverde ou alvinegro.

Ídolos: pra que?

Rogério Ceni foi protagonista de uma geração gloriosa do São Paulo. Com a faixa de capitão, conquistou o Estado, o País (três vezes consecutivas), o continente e o mundo. Nunca um goleiro havia marcado gol num Mundial da Fifa. Nunca até o advento de Ceni. Que não se contentou e acabou o torneio como melhor jogador da decisão e melhor jogador do torneio. Ganhou a Bola de Ouro e um carro da patrocinadora. Recusou o veículo e dividiu o valor correspondente entre os funcionários do clube: o massagista, a cozinheira, o zelador, o roupeiro e mais uma dúzia de gente que viu o rapaz entrar no Morumbi um moleque de 18 anos e sair um homem e pai de 36.

Antes de Ceni, nenhum jogador que não fosse de um clube europeu havia ficado entre os 50 finalistas do prêmio da revista France Football, referência no planeta quando o assunto é futebol. “Chega a ser intrigante o nível de perplexidade diante da imagem de uma pessoa que é tão igual a ela” pondera a professora de sociologia e antropologia Luciene Pazinato da Silva nesse aspecto, lembrando do fã diante do seu ‘Rogério Ceni’. Completando, ainda, que “há uma necessidade, inclusive, inerente a determinadas camadas sociais de ter um ídolo”.

O psicoterapeuta Jungano e professor de neuropsicologia Tito Lívio Ferreira Vieira repassa como essa é uma característica essencialmente ligada ao jovem. “Embora não seja exclusiva deles, há uma tendência muito grande na sociabilidade e em se ver representado”. Na alusão às figuras que não sejam exemplos de conduta social, o psicoterapeuta explica que “os jovens passam a ter uma identificação com o ídolo, a partir disso advém a imitação, ainda que inconsciente, e em casos de transgressores e de maus exemplos, arrebata correligionários problemáticos na mesma intensidade”.

“A imagem do político enquanto ídolo fica muito mais forte durante as campanhas” responde Luciene, e que essa medida pode definir, mesmo, o resultado nas urnas; a expectativa criada nesses períodos, aliás, define muito bem a relação com o ídolo para a professora. Vieira vai além e avalia que “todos nós, seres humanos, naturalmente a partir do nosso inconsciente coletivo, temos a tendência de produzir mitos. A alma, a psique, tem uma natureza mito-poética”. O especialista vale-se da teoria para confirmar a extemporaneidade dessa figura mítica. “Carl Jung assinala que é uma necessidade, e o mito do herói não será manifestado em todas as pessoas, nem todo tempo, e sim em determinados momentos” define.

Ronaldo declarou para Juca Kfouri, Clóvis Rossi, Mônica Bergamo e Xico Sá, em sabatina da Folha de São Paulo outro dia, que “o brasileiro é tão carente de ídolos e heróis que o futebol preenche isso para o povo”. O único jogador na história a ser eleito três vezes pela Fifa o melhor do planeta e o ser humano com mais gols em Copas do Mundo deve ter alguma idéia do que está falando. Ainda que não tenha ficado 19 anos ininterruptos em nenhum clube, e tenha sido infiel em duas das maiores ‘capitais’ do futebol do planeta: em Milão, deixou a Internazionale para mais tarde se transferir ao Milan; e na Espanha, da Catalunha para Madrid, na maior rivalidade interclubes do mundo, saindo do Barcelona para defender as cores brancas do Real.

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