
Não é fácil mudar. Mudanças pressupõem concessões que, em regra, não são simples, ou agradáveis. Mais difícil, porém, é sacar a hora certa de mudar. Às vezes, as opções estão enevoadas, e não dá para saber com certeza, mais tarde, se outra saída haveria de ser melhor. E aí, nem arrependimento resolve as coisas. Ainda que arrepender-se também implique um erro.
Ontem foi o Dia do Futebol. Tá, e daí? A verdade é que quando a semana parece que vai começar assim, boa, uma notícia tem o potencial de reverter tudo. Uma nota, que seja. Deixa estar...
Antes disso, cabe uma ponderação a respeito dos resultados pós-Copa do São Paulo e de Ricardo Gomes. A volta ao Brasileirão se deu em casa, em uma data especial. Mais especial e importante, eu diria, que essa segunda-feira que homenageia o Rio Grande, o clube mais antigo do País. A quarta-feira, 14 de julho, mais que da Queda da Bastilha é o dia da redenção. Foi em um 14 de julho que o São Paulo se tornou o primeiro e único brasileiro tri-campeão da América. Formidável, o dia que nunca precisaria terminar.
E o cenário acabou por ser sarcástico. Não bastasse a derrota para o Avaí, que é o menos importante em toda a situação, era o Avaí de Antônio Lopes. O esposo da D. Elza, o mesmo técnico que sentou no banco de reservas dos visitantes naquela final de Libertadores brasileira. Foi como, digamos assim, uma singela revanche, ou ao menos, um acerto de contas, na medida em que o valor dos resultados acaba por ser infinitamente distintos.
Tudo isso faz parte.
Na rodada seguinte, no sábado, o tricolor perdeu no Nordeste uma invencibilidade de quase uma década, contra o Vitória. Menos representativa. Muito menos, por exemplo, que os tabus de perder para o Corinthians depois de quatro anos, ou não vencê-los com dois jogadores a mais em campo, ou a derrota em casa pela Libertadores depois de 19 anos (não é querer ser mais real que o Rei, mas todos os fracassos citados sob comando de Muricy Ramalho, que verdade seja dita, era o corajoso treinador do primeiro gol do Mito Maior Rogério Ceni).
Em linhas gerais, são resultados mais do que normais, para não dizer esperados, se você analisar friamente. O problema é o que eles representam.
Desde 2006, o São Paulo não ia a uma semifinal de Libertadores. Faltavam quatro jogos para esse esperadíssimo retorno. Agora faltam dois...

Mas, antes, um pequeno adendo. A notícia, ou a nota, capaz de estragar o dia do futebol, é a exoneração ainda sem explicação plausível de Turíbio Leite de Barros. Um dos, para não dizer o fisiologista mais renomado e respeitado da América Latina. Mais de duas décadas de serviços prestados ao clube, um dos mentores do Centro de Reabilitação e Fisiologia, que fazem do São Paulo referência internacional, parte integrante e carro-chefe da comissão técnica permanente, que participou das duas mais gloriosas trajetórias da história do São Paulo: a era Telê e a era Ceni.
Comunicados, justificativas, desmentidos por assim dizer, são de praxe. Alguns desses falam em reestruturação, em reposicionamento. Outros dão conta de que as atividades paralelas do requisitado profissional (pessoas competentes pagam esse ônus em qualquer ramo da vida) não comportam os interesses do clube. Entre outros motivos divulgados, nenhum é realmente convincente.
Esse é o ponto. E o momento de refletir a respeito das mudanças. Mudar por mudar, nunca é uma solução acertada. E estabilidade sempre foi um dos segredos do sucesso do São Paulo. Dr. Turíbio, como já assinalado, fez parte de uma vencedora, respeitada e reconhecida comissão técnica. Ao lado do auxiliar Milton Cruz, do preparador físico Carlinhos Neves, do preparador de goleiros Haroldo Lamounier, dos médicos José Sanchez e Marco Aurélio Cunha, dos fisioterapeutas Luís Rosan e Roberto Sasaki, dos massagistas Ailton e Almir, do roupeiro Valdeci, entre outros, além dos trabalhos da diretoria com Júlio Cesar Cesares, João Paulo de Jesus Lopes, o saudoso Marcelo Portugal Gouveia, até o presidente Juvenal Juvêncio. Esse “corpo”, essa “coluna vertebral”, comandou e comanda o São Paulo. Que não é partidário de certos meandros que contaminam o futebol.
É notória a passagem na qual o Dr. Luís Rosan, há mais de vinte anos no São Paulo e fisioterapeuta da Seleção Brasileira há mais de uma década, poderia ter se desligado do clube. Há uns quatro anos, mais ou menos, ele já se sentia cansado da rotina estafante de uma megalópole como São Paulo, e se via receptivo a ideia de respirar novos ares com a família, literalmente. E uma proposta do Santos era a união do útil com o agradável, da fome com vontade de comer. Em uma reunião com a diretoria, Rosan explicara que o problema não era o salário, nem as condições de trabalho no São Paulo. Mas sim, o bem que seria viver mais tempo na cidade litorânea. Pois bem. Se esse era o “problema”, a diretoria tricolor não titubeou. Deu seis meses de licença, de recesso, para seu fisioterapeuta, sem um milésimo de corte no salário. Era receber para descansar, para voltar depois. Não é do feitio, da natureza tricolor, desperdiçar, ainda mais para um rival, tamanha e valorosa mão-de-obra. Seria, quase como agora, uma recusa as próprias origens, renegar o passado. Moral da história: Rosan continua como funcionário do São Paulo.
Mudanças no clube, aliás, já foram muito raras. Entre 2004 e 2009, o São Paulo não demitiu um treinador sequer, ainda que tenha perdido três Libertadores, outra infinidade de Paulistas, uns brasileiros... Isso, aliás, fez do banco de reservas do Morumbi a ambição profissional de três quartos dos treinadores em atividade no País.
Por essas e outras, fica muito complicado entender o que há na saída do Dr. Turíbio. Ao que parece, o clube também assinala que pode se virar sem um fisiologista na comissão técnica. Mas aí a questão. Precisou por 25 anos e agora não precisa mais? O silêncio incomoda nessa altura. Qualquer um que acompanha a trajetória são-paulina, de longe ou de perto, está no mínimo estupefato, pode dizer-se traído, sendo mais radical.
Recebi com pesar a notícia. E me pus a refletir sobre mudanças.
As informações são de que o treinador Ricardo Gomes pode não amanhecer a quinta-feira no Morumbi, caso não vença o Grêmio Prudente, no Brasileiro. Aquela segurança que a comunidade tricolor sentia de que o trabalho seguiria sendo feito da maneira mais correta, cai por terra. O panorama é sintomático. Vencer o time mais novo da primeira divisão, em casa, não é a resposta para os problemas, para as soluções. Como perder, não quer dizer que as coisas estão erradas. Resultado explica uma parte do fato. O treinador está longe de ser unanimidade no tricolor. Mas é preciso ter respeito pelos profissionais que se tem, que faltou com Dr. Turíbio, que já havia faltado com Roberto Rojas (demitido do cargo de treinador no final de 2004, depois de ter colocado o São Paulo na Libertadores após uma década de ausência – caiu no ostracismo e perdeu ainda o posto de treinador de goleiros, sem saber por que estava de saída). Mudar e mudar meio que a esmo é o que está na gênese de um tanto de fracassos de clubes, Brasil a fora.
Se pode haver um consolo, os nomes especulados são de estirpe. Adilson Baptista e Silas, os favoritos hoje, são tão ou quão melhores que Ricardo Gomes – não há nome páreo para Dr. Turíbio. Silas está mais fora que dentro do Grêmio hoje e construiu um vinculo como jogador que o qualifica a voltar como técnico; Adilson já foi sondado em outros carnavais, está desempregado e tem mais partidários na cúpula tricolor que o próprio Ricardo. Seja como for, se deram o tempo de parada para a Copa do Mundo para Gomes trabalhar o time, que agora deixem-no fazer o trabalho dele. Não se avaliza competência em quatro, quem dirá, dois jogos. Sem falar que trocar agora, apenas por trocar, para atender uma vaidade, é simplesmente inócuo – como não se vislumbra um panorama razoável para a saída de Dr. Turíbio, nesse novo São Paulo. O que Ricardo deixou de fazer em mais de quarenta dias, antes da semifinal da Libertadores, não será feito diferente por um treinador que cair agora, menos de uma semana para o começo da decisão da vaga. Uma troca agora é atestar incompetência, de erro de avaliação – como seria por para fora sem “pompa” e “circunstância” alguém com 25 anos de casa... A decisão do treinador que joga a chance do Tetracampeonato sul-americano deveria ter sido feita antes da paralisação do Mundial da África. É terrível admitir, mas agora já é tarde. Como também será tarde, depois, para saber se a escolha terá sido a melhor. Devaneios de quem muda.





2 comentários:
Fala cientista! Bom, primeiro quero discordar de você com relação ao marido de Dna. Elza. A vitória do avaí jamais deve ser comparada, nem de longe, ao feito do tricolor paulista naquela final de libertadores, frente ao forte trético diga-se de passagem.
Agora realmente todo torcedor deve lamentar a saída do Dr. Turíbio. Você mesmo já descreveu os feitos desse renomado doutor.
Outro ponto é que eu sempre duvidei do sucesso de Ricardo Gomes no São Paulo. Acho também que não seria a hora de trocar, ela já passou, seria na pausa da copa do mundo. Acho que existem profissionais, não diria mais competentes, mais que poderiam dar mais certo no São Paulo do que o Gomes.
No mais é isto. Valeu pela visita lá pelo meu blogue.
Um grande abraço. Saudades, aparece na rádio qualquer hora!!
Clé
Que legal teu blog, agora que descobri aqui apareço sempre, mesmo sendo grande desconhecedora do mundo da bola!
É, Murilo taí daqui a pouco mesmo...rs
Obrigada por visitar meu blog querido, venha mais vezes!
beijos e abraços da Família Musso
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